Review – Álbum – Dona Iracema – Balbúrdia

Uma banda lançar um disco chamado “Balbúrdia” já merece elogios só por isso. Afinal de contas, o atual ministro da educação Abraham Weintraub afirmou que é isso que ocorre nas faculdades públicas do país. O timing do grupo Dona Iracema na escolha do título foi perfeito e é impressionante como uma simples palavra pode trazer tanto significado. É importante ver artistas, principalmente musicais, se posicionarem em relação ao desmonte na cultura que vem sendo promovido pelo governo federal.

O melhor de tudo é que o conjunto de Vitória da Conquista aborda temas contemporâneos com muito bom humor, misturando também em suas letras referências regionais. Tudo isso com uma sonoridade que tem influência dos anos 1990 de bandas como Mamonas Assassinas, Raimundos, Red Hot Chilli Peppers e Faith no More, e até mesmo da baiana Catapulta (como bem lembrou Franchico), mas que ao mesmo tempo tem um “frescor” atual. Sem dúvidas “Balbúrdia” é um dos discos mais “cool” de 2019, tanto do rock baiano quanto do nacional.

Tentar descrever o som da Dona Iracema é uma tarefa interessante, já que simplesmente citar as influências ou sons parecidos não seja o suficiente. Rock pesado, hardcore, um swing meio thrash (!?)… Ou como o próprio baterista Oscar definiu em entrevista para o blog Rock Loco, seria como uma mistura de gêneros bem diversa com uma grande quantidade de ritmos sem amarras. Ao ouvir “Balbúrdia” o ouvinte percebe que a sonoridade varia bastante, mas o mais impressionante é que banda mantém a coesão, o que é fundamental quando se cria uma enorme mistura sonora desse tipo.

No entanto, não é só no rock “bagaceira” que o som da Dona Iracema se inspira. A sonoridade baiana também está presente, tanto que a faixa “Volta pra Casa João” conta com a ilustre presença do “Prince baiano” (termo que esse que vos escreve inventou) Luiz Caldas. Isso mostra que eles não se limitam apenas na vertente roqueira, mostrando que o gênero não precisa se prender dentro de regras muito restritas

Agora é nas letras que a balbúrdia fica completa! Em “Cara de Pau” o vocalista Balaio pergunta “Quem sabe com quantos paus se faz um cidadão de bem”, jogando a verdade na cara do conservadorismo de fachada da sociedade brasileira atual. Mas tem também espaço para uma pegada pop “Escuta Meu Cd”, cuja letra vai ficar na cabeça de quem ouvir. Mas sem dúvidas a mais hilária é “Centro do Universo”, que com apenas uma palavra também diz muito sobre o Brasil de 2019.

O disco produzido por André T é também um dos mais divertidos de 2019, mas nem por isso não deixamos de sentir o profissionalismo da produção. Além disso, para completar a balbúrdia, o álbum ainda conta com outras participações especiais de Nancy Viégas e Pedro Pondé, figuras importantes da cena rock baiana de ontem e de hoje.

Ouça no Spotify:

Você pode gostar também