Review – Álbum – Maglore – Fluxo Natural

Review – Álbum – Maglore – Fluxo Natural

Eu precisava do novo disco da Maglore. O Fluxo Natural chega para mim como um presente, e é assim que tenho recebido cada obra da banda desde o Todas as Bandeiras. E isso inclui, claro, os discos solo de Teago Oliveira, que ouso dizer ser um dos melhores compositores da atualidade. Sim, essa é a minha opinião e, neste texto, ela basta.

Antes de qualquer coisa, preciso agradecer a Ramon pelo convite para escrever sobre esse disco. Tecnicamente, tenho pouco a oferecer. Não entendo de solos, riffs de guitarra, arranjos ou qualquer coisa que me permita explicar por que uma música funciona. Eu só sei falar sobre aquilo que me toca a alma. E talvez seja justamente por isso que Fluxo Natural tenha me dado tanta coisa para dizer.

O disco chegou em um dos momentos mais turbulentos da minha vida. E, de algum modo, falou por mim.

Eu, que recebi o V quando precisava gritar para o mundo que ainda era selvagem, recebi o Fluxo Natural quando precisava de acolhimento. E ele tem sido meu guia.

Li outro dia, em algum lugar da internet, alguém dizer que esse disco deveria se chamar como a faixa 2. Eu entendo o argumento, mas discordo. Para mim, “Fluxo Natural” é justamente o nome que amarra tudo. Porque existe alguma coisa nesse disco que se parece com aprender a não lutar contra o movimento inevitável das coisas. Ele fala dos processos naturais do fluxo da vida: partir, permanecer, perder, lembrar, desejar, aceitar, continuar.

E isso pode ser muita coisa para quem está tentando aprender a viver com a ausência.

O disco começa com Lucas cantando lindamente “Sul-Americano”. E talvez eu tenha demorado algumas audições para perceber que a esperança daquela música não é exatamente uma esperança tranquila. Ela nasce de um lugar apertado: “o céu fechava sobre a nossa casa”. Antes de olhar para a frente, existe uma casa da qual já não é possível salvar tudo. Ainda assim, a música insiste: há sempre futuro.

Quando ouvi pela primeira vez, eu estava quebrada demais para acreditar nisso. Sem nenhuma esperança nessa vida nova que, querendo ou não, começava para mim. E aí os caras abrem o disco justamente dizendo que é preciso seguir.

Poxa.

Foi a primeira música do Fluxo Natural que ouvi e pensei imediatamente: me lasquei.

Porque existe algo quase ingênuo, e digo isso da melhor maneira possível, na esperança que a gente fabrica quando precisa sobreviver. Não é aquela esperança bonita, pronta, iluminada. É uma esperança meio teimosa. A gente ainda nem sabe se acredita nela, mas precisa acreditar em alguma coisa para colocar o próximo pé no chão.

“Mais vale um pássaro voando que pedras na mão.”

Talvez seja disso que “Sul-Americano” fale para mim: não de ter certeza de que vai dar certo, mas de continuar apesar de não ter certeza nenhuma.

E há também algo na sonoridade que me levou imediatamente a outro lugar. Na primeira audição, pensei em Guilherme Arantes, uma referência que não sei se existe de fato ou se nasceu apenas no meu ouvido. Se eu tiver oportunidade no dia 20 de setembro, de 2026 (dia do show do lançamento do disco em Salvador) pretendo perguntar. Porque o Fluxo Natural começa diferente. Diferente o suficiente para, logo nos primeiros minutos, eu pensar: tem alguma coisa acontecendo aqui que eles ainda não tinham feito desse jeito.

E então vem aquela frase novamente: “Há sempre futuro.”.

Eu ainda estava reaprendendo a acreditar nisso…

Li muita coisa sobre esse disco. Ouvi entrevistas, matérias, podcasts. O trabalho de imprensa do Fluxo Natural foi muito bem feito e, em algum desses encontros, ouvi Teago dizer uma frase que ficou comigo: “a gente foi longe demais.”

E talvez essa seja também a minha percepção da Maglore a cada novo trabalho: eles sempre vão longe demais.

É bonito acompanhar o amadurecimento de uma banda que não parece interessada em simplesmente repetir aquilo que já sabe fazer. Há uma estética sendo construída para além das músicas, no design, nas imagens, no jeito de apresentar o disco, no merchan (quero tudo rs). O Fluxo Natural é um disco bonito antes mesmo de tocar. E espero sinceramente que, em algum momento, ele exista em vinil, porque há discos que precisam existir fisicamente, ocupar espaço na estante, viver junto com a gente.

Mas é quando ele começa a revelar sua ideia de movimento que o título ganha ainda mais sentido para mim.

Perda e permanência não aparecem como opostos. Fazem parte do mesmo ciclo.

Deixe perder, deixe estar, tudo que for e o que ficar.”

E então chegamos a Palestina nos Seus Olhos e a uma das frases que mais profundamente me atravessam nesse disco: “Tudo que irá permanecer / Não mais se poderá tocar.”.

Para alguém vivendo um processo de perdas, é difícil passar ilesa por uma frase dessas.

Porque talvez uma das coisas mais cruéis da ausência seja descobrir que permanecer não significa necessariamente continuar aqui. Há coisas que permanecem justamente quando já não podem ser tocadas. Pessoas, casas, vozes, gestos, versões de nós mesmos. Continuam existindo, mas mudam de lugar. Passam a existir na memória. O Fluxo Natural volta a essa ideia muitas vezes.

E eis que surge Sonho Real, provavelmente a faixa mais fofa do disco, e faz uma coisa estranha comigo: me faz dançar.

Ela me tira de onde estou e me transporta para algum lugar meio distópico, meio romântico.

Porque talvez o amor também seja isso: uma porta de emergência para quando a realidade enlouquece demais.

E eu já perco qualquer possibilidade de neutralidade na primeira frase: “Sei que a solidão dentro dos seus olhos pode desligar as luzes da cidade…

Pronto.

Sonho Real tem leveza.

Se, no entanto, eu tivesse que escolher apenas uma música deste disco, seria O Rio e o Mar. Porque nela o disco toca talvez no lugar mais sensível para mim: o amor que permanece depois da morte.

O Rio e o Mar me fala sobre memória. Sobre aquilo que continua correndo quando alguém já não está aqui. E inevitavelmente me leva de volta a Talvez, do disco V, outra música que sempre ouvi como uma espécie de constatação de que o amor também pode crescer na ausência. E é aqui que preciso explicar melhor por que chamo os discos da Maglore de presentes. Em 2022, quando V foi lançado, eu vivia o auge do Alzheimer da minha mãe. A doença já me obrigava a experimentar um tipo muito particular de ausência: aquela em que alguém começa a partir antes de efetivamente ir embora.

Naquele momento, o V me erguia.

Não sei explicar de outro jeito. Eu colocava o disco e, de alguma forma, encontrava força para viver aquilo. A faixa Talvez batia em mim de um jeito particular.

Quatro anos depois, chega o Fluxo Natural. E, desta vez, eu estava tentando entender como continuar depois de perder meu irmão de forma abrupta.

É impossível, portanto, que eu escute O Rio e o Mar apenas como música. Ela desperta em mim uma certeza dolorosa: alguns lugares não existem mais. E talvez seja justamente por isso que eu volte mentalmente a Palestina nos Seus Olhos. Se aquilo que permanece já não pode ser tocado, então existe uma urgência em guardar as memórias enquanto elas ainda existem. Repeti-las. Contá-las. Escrevê-las. Talvez seja essa uma das maneiras possíveis de continuar tocando o que já não está ao alcance das mãos. Então vem a música Raio de Sol e, por alguns minutos, o disco muda a temperatura. Ela me joga num sofá numa tarde de domingo.

É uma pequena suspensão no meio de tanta coisa. Só que, mesmo ali, o tempo continua sendo o assunto. A música quase implora para que seja possível inverter seu funcionamento, enquanto lembra que “o amanhã não vai se pôr se sonhar para sempre”.

De novo, a finitude.

Você pode desejar parar o relógio. Pode querer voltar. Pode tentar permanecer naquele sofá para sempre. O tempo não está nem aí. E talvez por isso Amor Sci-Fi se encaixe perfeitamente nesse momento do disco.

A banda aparece numa estética deliciosamente oitentista, e a música exige reação. Depois de tantas faixas olhando para aquilo que fica, para aquilo que foi perdido, para a memória e para o desejo impossível de negociar com o tempo, alguma coisa muda. O tempo não vai esperar você.

E aí talvez esteja uma das viradas mais bonitas do disco quando ouvido na sequência: o futuro, que em Sul-Americano parecia uma promessa, “há sempre futuro”, começa a ganhar outro significado.

Porque o futuro só pode ser alcançado pelo agora.

E então chegamos a Tudo Bem.

Talvez seja a música em que eu tenha sentido mais claramente aquilo que disse no começo deste texto: o Fluxo Natural me acolheu.

Porque, na música Tudo Bem, o texto fala: olha, eu não estou aqui para te consertar.

Ela não diz “levanta”. Não diz “reage”. Não promete que amanhã você vai acordar ótima. Ela parece simplesmente sentar ao seu lado e dizer: eu aceito você assim. Quebrada mesmo.

E existe um acolhimento enorme nisso.

A tristeza tem uma solidão muito particular. Não apenas porque nos isolamos, mas porque muitas vezes as pessoas ao redor não sabem o que fazer diante de alguém triste. Existe uma pressa para que a gente melhore, volte, reaja, seja novamente quem era.

Mas e quando não dá? Tudo bem.

Essa música me fez sentir menos sozinha dentro dessa solidão.

E talvez seja esse o consolo que o Fluxo Natural vem construindo desde o início: não a promessa de que nunca mais vamos sofrer, mas a lembrança de que nada permanece imóvel. Nem mesmo a dor.

Tudo é cíclico.

Alguma coisa se perde. E a coisa que ficou já não pode ser tocada. A gente tenta guardar. Tenta parar o tempo. Descobre que não pode. E segue. Até que, em algum momento, quase sem perceber, alguma coisa nos faz feliz novamente. Talvez seja esse o fluxo natural.

Mas Lucas ainda tem mais uma viagem para propor.

E entramos novamente naquele universo meio distópico onde as coisas obedecem a uma lógica própria. O tempo deixa de ser apenas uma medida e ganha características humanas.

Tem vontades, comportamentos, quase uma personalidade. O funcionamento natural das coisas é subvertido, e tudo passa a operar como num sonho: nada faz muito sentido, mas, se fizesse, faria todo sentido.

É muita viagem.

Só que, no fundo, estamos falando novamente da mesma coisa. Do tempo. De viver o momento. De sobreviver a ele. De entender que não adianta tentar negociar demais com algo que seguirá seu curso independentemente da nossa vontade.

E então o disco resolve explicar a vida usando… futebol. Confesso: demorei a entender.

A tal curva de trivela não fazia sentido nenhum para mim. Precisei recorrer ao marido e pedir ajuda. Ele me explicou como funciona o chute, a curva improvável que a bola faz, e foi aí que peguei a visão.

Poxa, finalmente alguém usando futebol de uma forma realmente sensível.

Porque, de repente, aquela imagem faz todo sentido dentro do Fluxo Natural. A vida também muda de direção no meio do caminho. Faz curvas que a gente não previu, toma rumos que pareciam impossíveis segundos antes. E não importa o quanto a gente tente calcular a trajetória: não teremos o controle o tempo inteiro.

Talvez viver também seja aprender a fazer a curva. A essa altura, o disco poderia acabar.

Depois de falar sobre futuro, perda, permanência, memória, amor, ausência, finitude, acolhimento e da impossibilidade de controlar o tempo, o convite parece estar feito: vá viver, mesmo sem saber exatamente para onde a bola vai.

E aí chega Caravelas. O verão.

Depois de tudo, uma pausa na dor. E eu confesso que espero esse verão quase com a mesma ansiedade que a música parece anunciar.

Talvez seja uma escolha óbvia para uma banda baiana terminar olhando para o mar. Mas, depois de atravessar o Fluxo Natural, o mar já não pode ser apenas paisagem. Porque existe alguma coisa muito bonita em terminar justamente ali. A água nunca está parada.

A onda chega e vai embora. Outra ocupa seu lugar. O corpo boia porque, por alguns instantes, para de lutar contra aquilo que o sustenta. E o disco que passou tantas faixas falando sobre a impossibilidade de controlar o tempo termina entregando o corpo ao movimento. É aí que percebo a genialidade da construção de um disco.

E talvez seja por isso que o álbum seja a forma de arte que mais mexe comigo. Não apenas pelas músicas isoladamente, mas pela possibilidade de alguém escolher uma primeira faixa e uma última; decidir o que vem depois de quê; construir relações entre músicas que talvez nem tenham sido compostas pensando umas nas outras e, ainda assim, quando colocadas naquela ordem, passam a contar uma história.

O Fluxo Natural começa dizendo:
há sempre futuro.
E termina no mar.

Talvez porque chegar ao futuro nunca tenha sido sobre controlar o caminho. Haverá dias em que vamos querer parar o tempo, outros em que será preciso reagir. Às vezes, alguém vai simplesmente sentar ao nosso lado e dizer que tudo bem não estar bem. A vida fará curvas que não sabemos calcular.

E, em algum momento, depois de tudo isso, o verão chega novamente.

Eu comecei este texto dizendo que recebi o Fluxo Natural como um presente. Agora acho que consigo explicar melhor o porquê. Não porque ele tenha me ensinado a superar a ausência. Nem acho que seja essa a proposta.

Algumas ausências não são superadas. Mas talvez a gente aprenda a carregá-las de outro jeito. A guardar aquilo que permanece. A aceitar aquilo que não pode mais ser tocado. A entender que a dor também se movimenta. E a continuar. Porque há sempre futuro. Mesmo quando a gente ainda está aprendendo a acreditar nisso.

Ouça no Spotify:

Mariana Pacheco

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *