Coluna – Ricardo Cury – We’re Gonna Make a Sound

Em 1995, com 16 anos, eu tocava bateria numa banda daqui de Salvador chamada Dinky-Dau. Naquele tempo, gravávamos fitas-demo (as primeiras eram basicamente ensaios gravados), fazíamos a capinha e mandávamos para todos os endereços que existiam. Fanzines, jornais, gravadoras, selos, casas de show, espeluncas… Após o envio, esperávamos a resposta pelo correio ou, com sorte, pelo telefone fixo, que tinha de tocar no exato momento em que estivéssemos em casa. As fitas-demo iam com os telefones de todos os integrantes da banda.

Um dia recebemos uma resposta. Um cara de Duque de Caxias, no Rio, chamando para um show lá no Rio, em Duque de Caxias.

– Vocês vão? – perguntavam os amigos.
– Oxe, claro.

Éramos adolescentes e acreditávamos no rock. Na verdade, o rock era a única coisa em que acreditávamos. Entramos num Uno Mille, eu, Bola, Pedro e Anderson, malas, caixa de bateria, pedal, pratos, ferragens, baixo, guitarra e sonhos, percorremos 1.600 Km até o Rio de Janeiro, tocamos pra seis pessoas e voltamos pra Salvador. Outros 1600 Km.

Uma dessas seis pessoas era Rodrigo Lariú, o CEO do MMRecords, o selo mais desejado daquele meio de década. Com ele, comprei uma fita demo de uma banda do seu estrelado cast chamada The Cigarettes, que até então eu só tinha lido sobre no fanzine também do MMRecords. Essa fita-demo (chamada Felícia) foi uma das que mais ouvi. Dia e noite. Mostrava pra todo mundo no colégio. Ninguém entendia. E sempre que eu ouvia, eu lembrava que na resenha que li, o jornalista chamava Marcelo Colares, guitarrista, vocalista, mentor e único membro oficial da banda de “um John Lennon punk”.

Em 1997, o Cigarettes lançou o disco Bingo e, um belo dia, numa comum manhã de sábado, eu estava fazendo um show com a Jupiterscope, banda que tive com Spencer, Thales e André, na porta da loja de discos Na Mosca.

– Man, tá vendo aquele cara ali com um cigarro na boca? – me perguntou Spencer, acendendo o seu cigarro e o meu, num intervalo entre as músicas.

– Que é que tem? – respondi, tragando e soltando a fumaça.

– É Marcelo Colares.

Quando a apresentação acabou, fizemos amizade fácil com o simpático rapaz. Guitarra, óculos e outro cigarro na boca.

– E aí, beleza? – disse ele, se apresentando.

“Um John Lennon punk com sotaque carioca”, pensei.

Passamos o dia bebendo e, no final, embriagados, fizemos a velha promessa de “vamos fazer um som” que, ao contrário do que sempre acontece, aconteceu.

No dia seguinte, de ressaca, estávamos no estúdio, eu na bateria, Spencer no baixo e Colares na guitarra, tocando todas as músicas do Cigarettes que eu e Spencer conhecíamos de trás para frente. Sweet Little Darling, Anabel Lee, Say Goodbye, Lips 2, Naturally Sad, We’re Gonna Make a Sound…

Durante o ensaio, eu ouvia as músicas sendo executadas e era a mesma voz, a mesma guitarra, o mesmo timbre, riffs… tudo como estava no disco e na tal fita-demo. Além das músicas do Cigarettes, tocamos cover de outras bandas contemporâneas do Rio de Janeiro, como Second Come, Stellar e Pelvs.

Esse ensaio resultou em dois shows. Um, na segunda edição do festival Boom Bahia, junto com, entre outros, Mundo Livre, Pavilhão 9 e Dois Sapos e Meio, onde, no fim de todas as músicas, os metaleiros ficavam gritando “Hanson, Hanson, Hanson”; e outro show em Aracaju, numa boate que tinha sido reformada e estava reabrindo: Tequila Café. Assim como os metaleiros de Salvador, os arrumadinhos da boate não entenderam muito bem o som e, assim como nós no palco, ficaram indiferentes.

– Pelo menos eles vão pagar a conta do bar e a gente não – disse Spencer, num intervalo entre as músicas, lembrando que para a banda o bar estava liberado.

Muitas pessoas não acreditam, mas Marcelo Colares e Ricardo Spencer ainda estão vivos e podem dar o testemunho do ineditismo de uma famosa frase mundial. Ela pode até ter sido dita antes, realmente não sei, mas, para nós, o big bang aconteceu quando, na volta pra Salvador, na manhã do dia seguinte, de ressaca pelos cigarros e cervejas intermináveis da noite, no silêncio calorento do ônibus mais barato, segurando uma revista Playboy que compramos num posto de gasolina na estrada, eu disse em alto e bom som: “tá no rock é pra sofrer”.

Feliz Dia do Rock. (texto publicado originalmente na página pessoal do Facebook de Ricardo Cury no dia 13 de julho de 2019, Dia Mundial do Rock)

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