Review – Álbum – Los Canos – Volta?

Surgida em 2003, a Los Canos fez sucesso na cena rock de Salvador com suas letras embebidas de romantismo juvenil e um certo humor meio ingênuo/meio debochado, tudo isso embalado por melodias grudentas e guitarras barulhentas. Em 2007, a saída do vocalista Eduardo Penna no “auge” da banda (após aparecerem na MTV, terem tocado em festivais pelo país e com disco novo recém-lançado) foi um duro golpe nessa trajetória que parecia ser promissora, e eles acabaram encerrando as atividades no ano seguinte.

Em 2018, a formação original se reuniu para um show, apresentando também músicas novas. Estas músicas estão presentes neste aguardado novo disco, que acabou de ser lançado nas plataformas digitais. Com o nome autoexplicativo “Volta?”, a Los Canos mostra mais seriedade e variedade temática do que nos trabalhos anteriores da banda, mas continua divertida, barulhenta e com alma bubblegum.

Após uma colagem com falas dos integrantes, um riff de baixo introduz a primeira faixa do disco, “Óculos”. Quando entram a guitarra e a bateria, logo me lembro de “Garota Nota 7” (do último disco da banda): punk bubblegum acelerado com letra simples e divertida. Eles não desaprenderam!

Em seguida, “Mimimi” mantém a alta velocidade, mas traz uma letra crítica e politizada (o que é uma novidade nas músicas da Los Canos). O alvo é quem chama de “mimimi” as reclamações contra piadas preconceituosas e outras coisas erradas que passam como normais. “Pelo direito de fazer piada/segue sem perceber/que nesse caso a piada é você.”

A terceira faixa, “E pra que ajeitar?”, é um rock mais cadenciado, com uma letra reflexiva sobre as dificuldades em se encaixar nos padrões da vida adulta, se tornar um cara “sério” e “se ajeitar”. Se ajeitar pra quê, se estamos felizes assim?

As letras críticas retornam nas duas próximas músicas: “Sua profissão é odiar”, com guitarras bem “ramônicas”, detona com os chamados haters, que proliferam nas redes sociais. Já “Eucentrista” é bem curtinha e ironiza os narcisistas, egoístas, egocêntricos… Esse tipo de letra lembra as músicas da Uine, um dos projetos de Penna nesse período de “recesso” da Los Canos.

Mas o romantismo finalmente resolve dar as caras em “Me tratar (a paixão)” – cujo clipe já foi lançado no YouTube. Baixo e bateria marcantes conduzem a música, na qual paixão é comparada com uma droga extremamente viciante. Viciante também é o refrão grudento (já usei quantas vezes essa palavra nesse texto mesmo?): “Vou me tratar com você/não quero nem saber/que efeito vai dar/se vai ser difícil de parar”.

Após “#Somostodosterráqueos”, uma vinheta com uma fala de Penna imaginando como seria a xenofobia e o preconceito aplicados aos extraterrestres, a Los Canos recupera o humor debochado do início da banda com “O miçangueiro de Wall Street”, a maior música do disco (mais de 6 minutos!). Após um discurso sobre a impossibilidade de esta ser uma faixa escondida, porque as pessoas “vão ouvir no Spotify” (como eu realmente estava ouvindo), vem um teclado que lembra “Like a Rolling Stone”, uma letra irônica, vocais desleixados e muita “bagunça”, fazendo um contraponto ao lado mais sério do álbum.

Em “Volta?”, a Los Canos mostra que conseguiu amadurecer sem perder sua essência, mesmo após tantos anos sem tocarem juntos. Fica aqui a torcida por mais shows e músicas novas, para que a interrogação no nome do disco seja substituída por um ponto de exclamação!

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