Entrevista - Deluxe Trio (RJ)
Realizada no dia 08/06/2008 por Ian Kelmer
Fotos por Fernando Gomes e Divulgação
O power-trio carioca Deluxe Trio, fez no Idearium, no Rio Vermelho, dia 08, o show de encerramento da turnê nordestina "Mais Pimenta e Muito Sol", divulgando o seu segundo disco e quase homônimo, "Mais Pimenta e Menos Sal". Depois de celebrarem a intensidade, como é típico às apresentações da banda, o guitarrista e vocal Gabriel Zander, vulgo Bil, conversou com o BahiaRock.
Pra começar, queria que você contasse a história da banda.
Bil: O Deluxe Trio começou do final do Discotheque, que era uma outra banda em que eu tocava. A galera da banda começou a se desencontrar, se desanimar, não conseguia mais marcar ensaio, cada um estava fazendo uma coisa diferente e eu tinha uma porrada de música que eu tava louco pra tocar. Aí eu vi que não ia rolar e comecei a tocar com um camarada meu, que era o Rafa (ex-Planet Hemp). Na época a gente tava começando a procurar casa pra alugar, porque a gente ia montar o nosso estúdio e dando um rolê pela cidade, trocando idéia sobre som, a gente falou "vamos fazer um som?", "demorou".
Eu tava com um monte de música, ele tava afim de tocar batera, aí a gente começou a ensaiar sem compromisso, de bobeira. Aí começou a ficar legal, aí "ah, cara, vamos arrumar um cara pra tocar baixo". Aí tinha o Guta, de uma banda chamada Dandara, que eu sempre via o show, sempre trocava idéia com ele, um moleque novo. Eu tava afim de chamar um cara novo e que tivesse num gás pra tocar, até porque no Discotheque o pessoal tava desanimando, com esse lance de trampo, eu "pô, vou pegar um cara 'novão', que tá na facul, que esteja com tempo". Ele aceitou, a gente ensaio e começou. Em um mês a gente já tava com um cd pronto pra gravar.
A gente lançou o primeiro cd, fizemos turnê, tocamos bastante, aí o Rafael resolveu sair quando a gente ia gravar o segundo cd. Antes disso, em uns shows que o Rafa não pôde ir, a gente tava tocando com o Rito, que era do Noção (de Nada). Aí ele gravou o disco, ficou um tempo, saiu e entrou o Bola de Fogo, que é o nosso batera. O Léo, que tocou nessa turnê do nordeste, tá só quebrando um galho, porque o Bola de Fogo agora começou a trampar...
O trabalho então é o inimigo número um da banda, então.
Bil: Exatamente. Não tem como.
Ano passado, com o fim da Noção de Nada, que era uma referência no país, as atenções acabaram se voltando para vocês, para a banda que tinha a sua presença, as suas composições. Queria que você contasse um pouco sobre o fim do Noção de Nada e como foi esse processo de transição em que o pessoal ficou mais ligado em vocês.
Bil: O fim do Noção é isso: trampo, cinco caras, cada um com uma cabeça diferente, com um foco diferente, com projetos de vida totalmente diferentes e chegou uma hora em que só dava para fazer ou a banda ou outra coisa. Então, chegou uma hora em que não dava mais. A gente tinha acabado de fazer um cd que a gente gostou muito e que teve uma recepção muito boa. E a gente achou que era a melhor coisa, cara. Parar enquanto tá bom, antes de continuar arrastando e lançar um cd ruim. "Não, tá bom, fizemos, está aí registrado. É isso, demos o recado, cada um segue a sua parada".
Eu já tinha o Deluxe. O que rolava é que a gente não tinha tempo pra fazer tour, eu tava sempre tocando com o Noção. A gente já tinha lançado o primeiro disco e eu tava amarradão em botar pra frente, só que não dava, não batia, não tinha como. O Noção era mais um trampo mesmo, o Deluxe mais um projeto. Quando acabou o Noção, eu tava com tempo sobrando, então, "vamos embora, vamos mandar brasa". Foi sem pensar isso, de imediato. Tem uma galera que conheceu o Noção agora, depois de ter acabado a banda e descobre que eu tenho outra banda, vêm, conhece e acaba curtindo. Tem uma galera que ouve primeiro o Deluxe e depois que sabe do Noção. Então, é tipo o final de uma página e o início de outra. São fases.
Falando em produtividade, vocês tem a possibilidade de ensaiar e, principalmente, gravar em um estúdio próprio, vendiam em uma loja própria, coisa que poucas bandas têm. Isso não gera aquela "sindrome da perfeição", querer que sempre alguma coisa melhore, vendo os erros mais de perto? E como isso colabora no seu trabalho musicalmente?
Bil: Cara, isso é até engraçado. No Deluxe, em particular, a gente não tem nada disso. A gente faz a música em um dia, grava no outro. É muito simples, a idéia sempre foi ser muito simples. Então, a gente faz a música, grava, tem outras idéias depois, vai inventando em cima e termina. Tem uma hora também que "ah, cara, tá começando a enjoar demais". Por acaso tem essa coisa de não perder muito tempo dentro do estúdio.
Fora isso, na questão da produção com outras bandas, aí sim, a minha visão de fora, às vezes eu tenho uma sugestão e a gente trabalha isso pra chegar num resultado que eu ache legal e que a banda fique satisfeita. Aí tem casos e casos. Tem vezes que a banda quer ser perfeccionista demais e aí você "não, já tá bom", e às vezes o contrário, a banda tá muito relaxada e você "não, galera, vamos lá".
No caso do Noção, por exemplo, o Sem Gelo (quarto e último disco da banda) a gente ficou dois anos gravando. Tem músicas ali em que a gente chegou a gravar umas quatro versões e se você ouvir a primeira e a última você fala, "pô, é outra música". É uma coisa que eu acho até um pouco chato, tem algumas que eu prefiro até as antigas, pra ser sincero. Mas eram cinco pessoas e a gente tentava chegar no meio termo dos cinco, por isso acabava demorando. No Deluxe são três, é mais rápido.
Sobre as composições, a maioria das músicas sempre parte de você. As letras são sempre diretas, com um texto bem simples e humano. Como é esse processo em que essa idéia de intensidade sempre está presente nas letras?
Bil: Totalmente, cara. Tudo que eu leio, escuto, andando na rua, ouvindo uma conversa no ônibus do trocador com o passageiro, no ponto de ônibus se eu parar pra trocar uma idéia, tudo isso influencia. Se você chegar pra mim e contar uma história que aconteceu na sua vida, sendo uma novidade pra mim me dá vontade de escrever sobre isso. Às vezes é uma coisa que acontece comigo que eu tenho vontade de falar. Não é muito complicado, é simplesmente minha visão e, felizmente, tem uma porrada de gente que se identifica. E eu estou aqui em Salvador hoje por causa disso, semana passada estava em Porto Alegre, isso é inexplicável. Você estar me dizendo isso, como um cara em Porto Alegre, em Brasília. É isso que me motiva a continuar.
Eu tô em casa com insônia, pego a minha violinha, o meu bloquinho, começo a escrever, quando eu vejo fiz uma música que daqui a pouco tá na internet e daqui a pouco tem uma porrada de gente cantando junto comigo. Eu não sei explicar. Eu acho uma coisa natural e acho lindo. É um negócio que me dá tesão de continuar fazendo.
Aliás, parece que a insônia é uma ótima produtora criativa...
Bil: Pô, pra mim cara... Aí você tem que levantar e botar num papel na hora.
Qualquer idéia...
Bil: Qualquer. Às vezes você tem até outras, andando na rua e tal, mas aí não tem como registrar, eu não ando com gravador. Idéia de letra até dá, mas de música eu perco. Então, quando eu tô em casa, pego a violinha, o gravadorzinho e já gravo pra não esquecer. Acho que 90% das vezes acho que foi assim, da insônia, de não conseguir dormir.
Falando nisso, então, como é que está a produção dos novos materiais?
Bil: A gente lançou um split agora com a Cinedisco e a gente acabou de gravar mais quatro músicas novas que falta só terminar de mixar e masterizar que vai sair num split de quatro músicas com o Dance of Days. Deve estar saindo até agosto. Falta só terminar a parte gráfica, o detalhe final e mandar pra fábrica. A gente vai se focar em divulgar isso, fazer uma tour se possível junto com os caras, que nem a gente fez recentemente com o Cinedisco. Aí depois disso, sim, vai ser hora de fazer um novo trabalho, mais pro ano que vêm.
De qualquer forma, a gente vai continuar lançando os nossos cds, como a gente sempre fez, trazendo pra vender a "cincão", correndo atrás, e botando na internet também. Mas não trampar mais com selo, com distribuição, troca, lançar outras bandas, porque é difícil, cara. Não tem retorno. Acaba sendo um prejuízo, as bandas acabam ficando com cd encalhado. Então, agora acho que é um momento assim, cada um por si, focando no seu trabalho primeiro pra daí poder fazer um trampo junto, que nem a gente tá falando agora de um split. Juntar duas bandas, é muito legal isso, divide os custos, faz uma tour junto. Eu acho que é um caminho a ser seguido.
Fotos por Fernando Gomes e Divulgação
O power-trio carioca Deluxe Trio, fez no Idearium, no Rio Vermelho, dia 08, o show de encerramento da turnê nordestina "Mais Pimenta e Muito Sol", divulgando o seu segundo disco e quase homônimo, "Mais Pimenta e Menos Sal". Depois de celebrarem a intensidade, como é típico às apresentações da banda, o guitarrista e vocal Gabriel Zander, vulgo Bil, conversou com o BahiaRock. Pra começar, queria que você contasse a história da banda.
Bil: O Deluxe Trio começou do final do Discotheque, que era uma outra banda em que eu tocava. A galera da banda começou a se desencontrar, se desanimar, não conseguia mais marcar ensaio, cada um estava fazendo uma coisa diferente e eu tinha uma porrada de música que eu tava louco pra tocar. Aí eu vi que não ia rolar e comecei a tocar com um camarada meu, que era o Rafa (ex-Planet Hemp). Na época a gente tava começando a procurar casa pra alugar, porque a gente ia montar o nosso estúdio e dando um rolê pela cidade, trocando idéia sobre som, a gente falou "vamos fazer um som?", "demorou". Eu tava com um monte de música, ele tava afim de tocar batera, aí a gente começou a ensaiar sem compromisso, de bobeira. Aí começou a ficar legal, aí "ah, cara, vamos arrumar um cara pra tocar baixo". Aí tinha o Guta, de uma banda chamada Dandara, que eu sempre via o show, sempre trocava idéia com ele, um moleque novo. Eu tava afim de chamar um cara novo e que tivesse num gás pra tocar, até porque no Discotheque o pessoal tava desanimando, com esse lance de trampo, eu "pô, vou pegar um cara 'novão', que tá na facul, que esteja com tempo". Ele aceitou, a gente ensaio e começou. Em um mês a gente já tava com um cd pronto pra gravar.
A gente lançou o primeiro cd, fizemos turnê, tocamos bastante, aí o Rafael resolveu sair quando a gente ia gravar o segundo cd. Antes disso, em uns shows que o Rafa não pôde ir, a gente tava tocando com o Rito, que era do Noção (de Nada). Aí ele gravou o disco, ficou um tempo, saiu e entrou o Bola de Fogo, que é o nosso batera. O Léo, que tocou nessa turnê do nordeste, tá só quebrando um galho, porque o Bola de Fogo agora começou a trampar...
O trabalho então é o inimigo número um da banda, então.
Bil: Exatamente. Não tem como.
Ano passado, com o fim da Noção de Nada, que era uma referência no país, as atenções acabaram se voltando para vocês, para a banda que tinha a sua presença, as suas composições. Queria que você contasse um pouco sobre o fim do Noção de Nada e como foi esse processo de transição em que o pessoal ficou mais ligado em vocês.
Bil: O fim do Noção é isso: trampo, cinco caras, cada um com uma cabeça diferente, com um foco diferente, com projetos de vida totalmente diferentes e chegou uma hora em que só dava para fazer ou a banda ou outra coisa. Então, chegou uma hora em que não dava mais. A gente tinha acabado de fazer um cd que a gente gostou muito e que teve uma recepção muito boa. E a gente achou que era a melhor coisa, cara. Parar enquanto tá bom, antes de continuar arrastando e lançar um cd ruim. "Não, tá bom, fizemos, está aí registrado. É isso, demos o recado, cada um segue a sua parada". Eu já tinha o Deluxe. O que rolava é que a gente não tinha tempo pra fazer tour, eu tava sempre tocando com o Noção. A gente já tinha lançado o primeiro disco e eu tava amarradão em botar pra frente, só que não dava, não batia, não tinha como. O Noção era mais um trampo mesmo, o Deluxe mais um projeto. Quando acabou o Noção, eu tava com tempo sobrando, então, "vamos embora, vamos mandar brasa". Foi sem pensar isso, de imediato. Tem uma galera que conheceu o Noção agora, depois de ter acabado a banda e descobre que eu tenho outra banda, vêm, conhece e acaba curtindo. Tem uma galera que ouve primeiro o Deluxe e depois que sabe do Noção. Então, é tipo o final de uma página e o início de outra. São fases.
Falando em produtividade, vocês tem a possibilidade de ensaiar e, principalmente, gravar em um estúdio próprio, vendiam em uma loja própria, coisa que poucas bandas têm. Isso não gera aquela "sindrome da perfeição", querer que sempre alguma coisa melhore, vendo os erros mais de perto? E como isso colabora no seu trabalho musicalmente?
Bil: Cara, isso é até engraçado. No Deluxe, em particular, a gente não tem nada disso. A gente faz a música em um dia, grava no outro. É muito simples, a idéia sempre foi ser muito simples. Então, a gente faz a música, grava, tem outras idéias depois, vai inventando em cima e termina. Tem uma hora também que "ah, cara, tá começando a enjoar demais". Por acaso tem essa coisa de não perder muito tempo dentro do estúdio.
Fora isso, na questão da produção com outras bandas, aí sim, a minha visão de fora, às vezes eu tenho uma sugestão e a gente trabalha isso pra chegar num resultado que eu ache legal e que a banda fique satisfeita. Aí tem casos e casos. Tem vezes que a banda quer ser perfeccionista demais e aí você "não, já tá bom", e às vezes o contrário, a banda tá muito relaxada e você "não, galera, vamos lá".
No caso do Noção, por exemplo, o Sem Gelo (quarto e último disco da banda) a gente ficou dois anos gravando. Tem músicas ali em que a gente chegou a gravar umas quatro versões e se você ouvir a primeira e a última você fala, "pô, é outra música". É uma coisa que eu acho até um pouco chato, tem algumas que eu prefiro até as antigas, pra ser sincero. Mas eram cinco pessoas e a gente tentava chegar no meio termo dos cinco, por isso acabava demorando. No Deluxe são três, é mais rápido.
Sobre as composições, a maioria das músicas sempre parte de você. As letras são sempre diretas, com um texto bem simples e humano. Como é esse processo em que essa idéia de intensidade sempre está presente nas letras?
Bil: Totalmente, cara. Tudo que eu leio, escuto, andando na rua, ouvindo uma conversa no ônibus do trocador com o passageiro, no ponto de ônibus se eu parar pra trocar uma idéia, tudo isso influencia. Se você chegar pra mim e contar uma história que aconteceu na sua vida, sendo uma novidade pra mim me dá vontade de escrever sobre isso. Às vezes é uma coisa que acontece comigo que eu tenho vontade de falar. Não é muito complicado, é simplesmente minha visão e, felizmente, tem uma porrada de gente que se identifica. E eu estou aqui em Salvador hoje por causa disso, semana passada estava em Porto Alegre, isso é inexplicável. Você estar me dizendo isso, como um cara em Porto Alegre, em Brasília. É isso que me motiva a continuar. Eu tô em casa com insônia, pego a minha violinha, o meu bloquinho, começo a escrever, quando eu vejo fiz uma música que daqui a pouco tá na internet e daqui a pouco tem uma porrada de gente cantando junto comigo. Eu não sei explicar. Eu acho uma coisa natural e acho lindo. É um negócio que me dá tesão de continuar fazendo.
Aliás, parece que a insônia é uma ótima produtora criativa...
Bil: Pô, pra mim cara... Aí você tem que levantar e botar num papel na hora.
Qualquer idéia...
Bil: Qualquer. Às vezes você tem até outras, andando na rua e tal, mas aí não tem como registrar, eu não ando com gravador. Idéia de letra até dá, mas de música eu perco. Então, quando eu tô em casa, pego a violinha, o gravadorzinho e já gravo pra não esquecer. Acho que 90% das vezes acho que foi assim, da insônia, de não conseguir dormir.
Falando nisso, então, como é que está a produção dos novos materiais?
Bil: A gente lançou um split agora com a Cinedisco e a gente acabou de gravar mais quatro músicas novas que falta só terminar de mixar e masterizar que vai sair num split de quatro músicas com o Dance of Days. Deve estar saindo até agosto. Falta só terminar a parte gráfica, o detalhe final e mandar pra fábrica. A gente vai se focar em divulgar isso, fazer uma tour se possível junto com os caras, que nem a gente fez recentemente com o Cinedisco. Aí depois disso, sim, vai ser hora de fazer um novo trabalho, mais pro ano que vêm. De qualquer forma, a gente vai continuar lançando os nossos cds, como a gente sempre fez, trazendo pra vender a "cincão", correndo atrás, e botando na internet também. Mas não trampar mais com selo, com distribuição, troca, lançar outras bandas, porque é difícil, cara. Não tem retorno. Acaba sendo um prejuízo, as bandas acabam ficando com cd encalhado. Então, agora acho que é um momento assim, cada um por si, focando no seu trabalho primeiro pra daí poder fazer um trampo junto, que nem a gente tá falando agora de um split. Juntar duas bandas, é muito legal isso, divide os custos, faz uma tour junto. Eu acho que é um caminho a ser seguido.
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